Doclisboa 2024: “Blur to the End”
Em abril deste ano correu mundo o desagrado de Damon Albarn com a apatia do público de Coachella na apresentação dos Blur – depois de falhar ao tentar engajar o público em “Girls and Boys”. Com uma carreira errática no século XXI, onde os habituais processos de exaustão física e mental combinam com o desgaste nos relacionamentos, o que se segue no final deste “To the End” é uma espécie de final feliz à história.
O filme segue a banda após a reunião para a gravação de “The Ballad of Darren”, no ano passado, e a “tour” subsequente. Novamente planeando “terminar”, eles têm a hipótese de um grande final simbólico tocando nada menos que num Wembley Arena lotado. Diferente do festival californiando, aqui o líder dos Blur diz outra coisa para o público: “por que é que um bando de velhos está aqui a fazer isso? Por vocês. Por isso quero que todo o ‘cabrão´neste estádio agora salte!”. Como o que vinha a seguir era “Song 2”, tudo ficou mais fácil. Os Blur podem terminar com a lembrança de uma sensacional explosão de energia, luzes e interações com a plateia.
A ironia de tudo isso (e do título do filme), é que ninguém sabe se tudo isso foi um “final”. Segundo o compositor “workaholic” da banda (“enquanto todos estão a curtir ou a descansar ele está a escrever”, diz um deles) depois passarem novamente juntos durante um ano, é bom outra vez que todos simplesmente sigam o seu caminho. Mas não poderá viver sem isso – embora com os Gorillaz também tenha sempre se mantido em atividade: com 55 anos, Albarn não parece poder parar.
O que é especialmente gratificante em “To the End” é testemunhar um encontro onde os músicos da banda viram-se para a câmera de Tomb L. com extrema honestidade. O filme é sobre um grupo que não vai à equipa de Relações Públicas pedir para agradar os fãs, mas antes assumem as partes nos sucessivos processos de desintegração da banda e das muitas dificuldades para continuar – tal como o papel do álcool no processo. O resultado é uma obra onde se sobressai a autenticidade, o humor e o drama de uma banda que agora reflete, sobretudo, sobre a passagem do tempo e a forma de estar no mundo.