Cannes 2026: entre consagração e risco, uma Competição de forte marca europeia
A edição de número 79 do festival decorre entre 12–23 de maio e a Competição apresenta 22 filmes, onde se confirma um equilíbrio já habitual entre nomes consagrados, autores em consolidação e algumas apostas mais discretas — mas esse ano com um traço diferencial: a centralidade europeia e uma presença americana reduzida.
No núcleo da seleção estão realizadores de longa relação com o festival, como Pedro Almodóvar (Bitter Christmas), Asghar Farhadi (Parallel Tales), Hirokazu Kore-eda (Sheep in the Box), Paweł Pawlikowski (Fatherland) e Cristian Mungiu (Fjord). A estes juntam-se cineastas igualmente reconhecidos como Ryusuke Hamaguchi (All of a Sudden), László Nemes (Moulin) e Andrey Zvyagintsev (Minotaur), reforçando o lado do cinema de autor exigente.
A meio caminho entre consagração e afirmação surgem cineastas como Rodrigo Sorogoyen (The Beloved), Lukas Dhont (Coward) e Valeska Grisebach (The Dreamed Adventure), cujas trajetórias têm ganho peso nos últimos anos. Já Marie Kreutzer (Gentle Monster), Léa Mysius (The Birthday Party), Arthur Harari (The Unknown) e Emmanuel Marre (A Man of His Time) e também Jeanne Herry (Another Day) ocupam esse território intermédio onde Cannes funciona como legitimação.
A abertura a novas vozes mantém-se controlada, com nomes como Charline Bourgeois-Tacquet (A Woman’s Life) ou a dupla Javier Ambrossi / Javier Calvo (The Black Ball), integrados numa seleção ainda dominada por autores estabelecidos.
Geograficamente, a competição é largamente europeia. A França surge como eixo central de coprodução, acompanhada por Espanha, Alemanha, Itália, Bélgica e países nórdicos, formando uma rede que estrutura o cinema apresentado. Mesmo realizadores de outras origens — como Farhadi ou Hamaguchi — aparecem integrados neste sistema europeu.
A presença americana é residual. James Gray (Paper Tiger) e Ira Sachs (The Man I Love) surgem como exceções, frequentemente em coprodução, apontando para um cinema americano mais autoral do que industrial.A Ásia mantém uma presença seletiva mas relevante, com Kore-eda, Na Hong-jin (Hope) e Koji Fukada (Nagi Notes), garantindo diversidade estilística dentro de um quadro dominado pela Europa.