FEST 2026 celebra a vitalidade do cinema europeu entre a memória da resistência e os novos olhares sobre o futuro
De 20 a 28 de junho, Espinho volta a afirmar-se como um dos principais pontos de encontro do cinema europeu contemporâneo com a realização da 22.ª edição do FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema. Distribuído entre as salas do Centro Multimeios de Espinho (Film Theatres 01 e Auditorium Planetarium 02) e o Casino Espinho (Casino), o festival reúne algumas das obras mais relevantes do circuito internacional, incluindo Yellow Letters, vencedor do Urso de Ouro da Berlinale 2026, que abrirá esta edição.
Num programa que cruza novas linguagens cinematográficas, cinema político e a celebração de grandes figuras da cultura europeia, o FEST presta também homenagem ao centenário de nascimento do realizador polaco Andrzej Wajda, símbolo do cinema de resistência.
O CulturaXXI conversou com o co-diretor do festival, Fernando Vasquez, que refletiu sobre o impacto contemporâneo de Yellow Letters, a importância de revisitar a obra de Wajda num contexto de crescente pressão sobre as democracias liberais e as tendências que marcam a nova geração de autores europeus. Numa edição que celebra a diversidade criativa do continente, Vasquez destaca um cinema capaz não apenas de interpretar o presente, mas também de imaginar e influenciar o futuro.
O vencedor de Berlim esse ano é o filme de abertura do FEST. Curiosamente “Yellow Letters” toca no cerco político na Turquia, mas a Berlinale acabou marcada pela intervenção do governo alemão no festival. O que pode adiantar sobre o filme e as suas implicações políticas?
O filme é inquestionavelmente tão provocador como pertinente. Retrata um casal de artistas turcos que vêm a sua vida virada do avesso depois de participarem num protesto contra o regime de Erdogan. Claro que se foca na realidade Turca, mas hoje, em 2026, não é descabido ponderar que as democracias liberais estão sob enorme pressão e que mesmo em sociedades livres existe uma crescente pressão politica. Como tal este é um filme com um valor contemporeaneo muito relevante. Ainda para mais trata-se da mais recente obra de Ilker Çatak, uma das mais electrizantes figuras do cinema mundial do momento, que regressa agora após o sucesso estrondoso de “A sala de professores”, e logo com um filme que venceu o Urso de Ouro em Berlim em Fevereiro passado. O FEST 2026 abre com um dos filmes mais essenciais do ano e não poderiar ser uma melhor forma de iniciar esta edição.

Ainda em termos de cinema político, o festival exibe três títulos de Andrzej Wajda – que discutiu fortemente a opressão comunista e coincidiu com a ascensão do Solidariedade. Por que escolheram esses filmes?
Em 2026 celebra-se o centenário do nascimento de Andrzej Wadja, figura lendária do cinema Europeu, e a figura de proa da chamada Escola Polaca. Para um festival como o FEST, tão focado no presente e no futuro, nem sempre é facil encontrar espaço no programa para se falar no passado. Quando o fazemos, acontece sempre numa logica de procura de exemplos inspiradores e relevantes para o presente. O Wadja notabilizou-se, entre outros aspectos, por ser um cineasta destemido e capaz de por o dedo na ferida num contexto extremamente hostil. Apesar das muitas ameaças, nunca hesitou em construir narrativas e ambientes contra poder. É por isso um exemplo perfeito de cinema de resistência, e que acabou por ter um impacto historico decisivo, e como tal, no contexto do momento, torna-se ainda mais imperativo revisitar a sua obra. Acredito que o cinema é sempre mais bonito e poderoso quando é desobediente, e em 2026 acreditamos que faz todo o sentido relembrar Wadja.
O FEST tem sempre forte presença do cinema europeu. Que temáticas e imaginários verifica nos títulos selecionados este ano?
O objectivo do programa do FEST é abrir uma janela para aquelas vozes e correntes que acreditamos que venham a marcar as tendências do futuro. Como tal, temos uma enorme variedade de temáticas e discursos cinematográficos. É sempre complicado encontrar muitos pontos comuns num programa tão abrangente. Diria no entanto que em 2026, mais do que temáticas comuns, existem ambientes e estilos que de facto têm vários pontos de encontro. Por exemplo, temos várias obras com narrativas quebradas e ambientes surreais, que nos descrevem os dias de hoje como um pesadelo kafkiano, do qual estamos lentamente a acordar. Eu interpreto estas visões como um sinal de que há um esforço por parte desta nova geração de sair deste fosso em que nos encontramos como sociedade, onde a tolerância e a pluralidade de ideias são frequentemente secundarizadas, e onde muitos de nós sentimos a necessidade de repensar o caminho que estamos a seguir. Para mim é um sinal de enorme vitalidade no novo cinema, uma vontade não só de ler o presente, mas também de influenciar o futuro. De uma forma geral, diria que os filmes desta selecção demonstram uma capacidade cativante da nova geração de autores de interpretar o momento em que vivemos e de o querer transformar.
O FEST já soma mais de duas décadas, certo? Como analisa essa longevidade e esse percurso?
Esta será a 22ª edição. Desde a sua fundação já passamos por várias provas, desafios e momentos complicados, mas acima de tudo a norma tem sido crescer de forma sustentada à medida que vamos desbravando o nosso espaço. Essa foi sempre a grande prioridade do FEST. E é esse o caminho que continuamos a seguir, diria que com sucesso. Claro que os desafios continuam a aparecer, por exemplo, hoje todos os festivais são obrigados a encontrar alternativas para lidar com custos de produção consideravelmente maiores do que eram há uns anos atrás. Esse é claramente o grande desafio do sector, e num país como Portugal, onde as fontes de financiamento não abundam, é preciso muita criatividade e capacidade de adaptação para lidar com esta problematica. Acreditamos sinceramente que ao longos dos anos nos tornamos muito relevantes, que desempenhamos um papel fundamental no crescimento e desenvolvimento do cinema em Portugal e na Europa. Mas também nunca nos permitimos adormecer à sombra dos sucessos do passado. O festival está virado para o presente e o futuro a nivel de programação, e o mesmo principio aplica-se a tudo o resto. Mais importante do que dissertar sobre o passado, é contruir os novos caminhos para o futuro. E esse tem de ser sempre o nosso grande foco.