Antevisão de Cannes 2026: Kiyoshi Kurosawa leva o mistério ao Japão do século XVI
Antevisão de Cannes 2026: Kiyoshi Kurosawa leva o mistério ao Japão do século XVI
“Kokurojo: The Samurai and the Prisoner” será apresentado na secção Cannes Première do festival. O filme afasta-se dos ambientes contemporâneos e urbanos que definiram grande parte da sua obra para mergulhar num território histórico — sem, no entanto, abandonar as suas obsessões formais.
Situado em 1578, o filme acompanha o senhor da guerra Araki Murashige, que se rebela contra Oda Nobunaga e se refugia no Castelo de Arioka. O espaço fechado rapidamente se transforma num campo de tensão: à medida que crimes inexplicáveis começam a ocorrer dentro das muralhas, Murashige recorre a uma figura improvável — o estratega Kanbei Kuroda, mantido prisioneiro — para resolver os enigmas a partir da sua cela.
A premissa articula dois registos que raramente coexistem de forma tão direta: o jidaigeki (drama histórico de samurais) e o mistério de “quarto fechado”, próximo de uma tradição literária associada a Agatha Christie ou às estruturas dedutivas de Sherlock Holmes. Aqui, a ação não se resolve tanto pelo confronto físico quanto pela inteligência, pela leitura de padrões e pela reconstrução de acontecimentos num espaço isolado. Aparentemente bem diferente das suas obras ainda hoje mais conhecidas – como “Cure” ou “Pulse”.
O confronto central é sustentado por dois nomes fortes do cinema japonês contemporâneo. Kenichi Matsuyama interpreta Murashige, figura de autoridade sob pressão, enquanto Hidetoshi Nishijima assume o papel de Kanbei, estratega enclausurado cuja única arma é o pensamento. A relação entre ambos estrutura o filme como um duelo indireto, onde poder e conhecimento se equilibram de forma instável.Com 134 minutos, Kokurojo surge num momento particularmente produtivo da carreira de Kurosawa, que em 2026 soma múltiplos projetos — sinal de que a sua vitalidade criativa continua ao rubro.