Crónicas de Ellesmere: “Saltarello”, simulacros e as muitas mortes de deus
E então o vampiro inventa uma dança, uma coreografia só sua no nevoeiro de Ellesmere ao som de “Saltarello”, enquanto os Dead Can Dance simulam com grande beleza a Idade Média sem referente (bom, sobreviveram pautas guardadas no Museu de Londres) e evocam Bosch, tão mal compreendido tantas vezes, tal como Nietzsche. Como Baudrillard classificaria isso? Uma referência onde o referente não é realmente real? E o vampiro dança maravilhosamente – porque a sua experiência é real e dispensa semióticas niilistas, porque Ellesmere é o encontro definitivo com algo que se pode tocar, longe dos humanos e sua doença diária de produção de sentidos – e então Nietzsche, cujo casaco surrado e os bigodes esvoaçantes nunca assentam bem na intempérie, lhe visita como sempre – mas desta vez não luta com monstros – mas o vampiro sabe que olha para dentro do abismo – não o moral dos humanos enfadonhos, mas o da perda da narrativa, o abismo do não-ser, onde nada pode existir fora da linguagem. Enquanto isso os humanos temem o não-ser ao deitar no caixão – mas aí já será tarde, sem sinapses nem oxigênio – o não-ser como cessação de atividade – e o vampiro ri pois dorme no caixão todos os dias e veio do mundo dos mortos – de um lugar longínquo onde deus ficou esquecido e já não consegue comunicar com a sua antiga criação – a qual, no entanto, aprendeu a falar outras línguas!