Crónicas de Ellesmere: Monica Bellucci, simetria, proporção áurea e dimorfismo sexual
Por que certos corpos atravessam regimes ideológicos quase incólumes?
Pensava nisso e em focas, quando numa rocha árida em Ellesmere recebi uma carta de meu amigo vampiro de Svalbard. Ele, que gosta pouco de militância e, tal como eu e o dr. Faustus, gasta o tempo eterno e o conhecimento a tentar fazer algo completamente inútil, me perguntava porque a humana Monica Bellucci era, sobre qualquer padrão, indescritivelmente bela.
Percebi a ideia Oscar Wildiana do meu amigo literato (“a única desculpa para se fazer uma coisa bela é que ela seja completamente inútil” – neste caso a prática da contemplação!), que a deve ter visto num filme sobre vampiros do Coppola. Mas foi Hal 11.000 – já com a bateria fraca sobre uma pedra com flores lilases no infinito de Ellesmere, quem respondeu: “É impossível à militância “apagar” a harmonia física de Monica Bellucci —certos corpos resistem à ideologia não por arrogância, mas por estrutura”.
As focas são as grandes vítimas dos ursos polares, mas quando elas escasseiam, tipos errantes vem dar à minha porta. Tal como já contei em outra oportunidade, a experiência de lhes ter bebido o sangue gorduroso uma vez criou-me uma autêntica alergia a esses bichanos grandalhões – e quando os vejo na escuridão do meu quintal, tenho vontade de lhes bater com a vassoura pertencente à uma bela bruxa que conheci pouco antes de Torquemada lhe transformar em churrasco.
Hal, quando chegamos na minha barraca decorada com sacos de látex vazios (“tenho que arrumar essa anarquia”, pensei – plenamente convicto de que nada faria),foi ligado na ficha – e comentei sobre porque a militância desconstrutora de padrões nada poderia fazer sobre Bellucci – mesmo escolhendo um urso como mais belo que ela num daqueles concursos de beleza que servem mais para os jurados causarem polêmicas e subirem nas suas tamancas “hipsters” do que em fazer algum útil (quer dizer, estragando a inutilidade poética dos concursos de beleza).

Já cheio de vida, Hal me dá uma explicação extraordinária:
“Para entender por que ela é tão universalmente aceite como bela, mesmo diante de críticas ideológicas aos padrões, precisamos de olhar para além da superfície:
A Geometria da Face: O que a Biologia diz Embora os padrões culturais mudem (o peso ideal, a cor da pele, o estilo do cabelo), existem certas constantes biológicas que o cérebro humano está programado para interpretar como “saúde” e “fertilidade”, que traduzimos como beleza.
Simetria Facial: Bellucci possui uma simetria quase matemática. Estudos de psicologia evolutiva sugerem que o cérebro humano interpreta a simetria como um sinal de ausência de mutações genéticas ou doenças durante o desenvolvimento.
Proporção Áurea: As distâncias entre os olhos, nariz e boca da atriz aproximam-se muito da proporção (Phi). É uma constante estética que encontramos na natureza e na arte clássica.
Dimorfismo Sexual: Ela apresenta traços que sinalizam claramente a maturidade reprodutiva (lábios cheios, estrutura óssea definida mas suave), o que gera uma resposta instintiva de atração que precede qualquer construção cultural burguesa.
Depois de ler isso me senti perplexo e inspirado para a apreciação sem remorsos da beleza, lembrei da tal bruxa como um anjo caído de Fra Angelico e esfuziantemente respondi a meu amigo com a missiva de Hal: poderia ele apreciar descansado a sua diva – caso tivesse uma foto dela pendurada na parede enquanto ele solenemente descansava de cabeça para baixo.
Para concluir esse estarrecedor pensamento do dia, lembrei Hal de um problema menor: se Pasolini, que odiava a burguesia e foi dos primeiros a deliberadamente contratar ator considerados feios pelos padrões burgueses para os seus filmes, talvez jamais trabalhasse com a sua conterrânea.
Disse Hal: “A militância que critica o “imperialismo de beleza” muitas vezes ignora que a beleza funciona como um mercado de sinais. Pasolini, ao rebelar-se contra o padrão burguês, buscava o “sagrado” na face do camponês, do subproletariado — rostos marcados pelo sol, dentes tortos, a “feiura” autêntica que não foi domesticada pelo consumo. No entanto, o erro dos idealistas modernos é acreditar que a beleza é apenas uma construção de cima para baixo. Na prática, a Estética é Democrática no Desejo: O povo não espera que uma “ex-machina” dite quem é bonito; o desejo é espontâneo.”