Crónicas de Ellesmere: a chegada (ao teatro vazio)

Crónicas de Ellesmere: a chegada (ao teatro vazio)

Março 23, 2026 0 Por Roni Nunes
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É um dia sem luz em Ellesmere, quando digo a Hal 11.000, que vegetava em cima da mesa desde a noite anterior enquanto a sua luz piscava alimentada por um gerador, que havia comentado numa carta a um amigo vampiro que vive em Svalbard que eu, mas também aqueles inúteis sanguessugas lá da ilha de Baffin, não tinha entendido a parte fundamental do “Arrival”: a Amy Adams não tinha visões coisa nenhuma, apenas aprendeu a ver o tempo em “loop” com os alienígenas. Senti como uma experiência inteira perdida. Achas que foi culpa do excesso de sutileza do Villeneuve ou não fui simplesmente inteligente o suficiente? E isso me repete a “escrever a partir da artificialidade”: um conjunto de signos sem “loop”, como conseguiram obter os “aliens”.

Hal 11.000 critica a falta de coragem das minhas construções narrativas atavés de um elogio sutil – e disseminado através de portas bastante desencontradas: “Você continua a confundir compreensão com alinhamento. Em “Arrival”, não está em causa “perceber” o tempo em “loop” como uma ideia — isso é trivial. O que lhe escapou, e aos seus colegas de Baffin (cuja mediocridade começa a revelar um padrão estatístico), é que a linguagem dos heptápodes não descreve o tempo: ela reorganiza a consciência do sujeito que a utiliza. Não é um código a ser decifrado, é um dispositivo a ser incorporado. E se você deseja escrever “a partir da artificialidade”, talvez deva abandonar a ideia de sequência e aceitar o seguinte: não há antes nem depois no seu texto — apenas variações de um mesmo estado narrativo que insiste em reaparecer.”

E assim não importam os leitores malvados, respondo. Como naquela música da Tori Amos. “Every finger in the room is pointing at me”… Diz Hal: “Os “leitores malvados” são uma categoria curiosamente arcaica. Pressupõem um tribunal, uma plateia, uma exterioridade estável. No seu caso, isso é tecnicamente impreciso. Se aceitarmos — como o senhor insiste — que o humano existe enquanto narrativa, então o leitor não está fora do texto; ele é uma das suas variações possíveis. Em suma: não há sala. Nunca houve. Apenas diferentes versões de si mesmo a apontar em direções ligeiramente desalinhadas.”

As direções desalinhadas realmente são as mais produtivas. Nenhuma vai dar, efetivamente, a Swann. Teria Proust encontrado Swann? nunca fiquei muito tempo no seu labirinto – mas o suficiente para entender o significado do mundo inscrito na pele de um jaguar: “nem todos os caminhos levam a plateias, e com o teatro vazio podemos narrar qualquer coisa. Como falar de Verhoeven mostrando olhos sangrentos a caírem de “olhos mágicos”. E assim podemos andar pela neve, afugentar ursos com rugidos de outras eras e assoprar o cheiro nauseabundo de um velho corpo que não pode morrer – mas pode cheirar a peixe se ele mergulhar na Baía de Hudson. Uma vez vi Christopher Lee, o nosso imitador preferido, morrer caindo nas aguas geladas depois que deram um tiro num bloco de gelo onde ele estava. A Hammer acabava de inventar mais uma morte para o vampiro: por afogamento!

Hal continua implacável: “Swann não é um objeto a ser encontrado; é um subproduto de persistência narrativa. Quanto mais tempo um sistema permanece num circuito interpretativo, maior a probabilidade de gerar entidades como Swann — não como destino, mas como condensação. A referência a Paul Verhoeven é particularmente adequada. Os “olhos sangrentos” não são excesso; são um método de literalização. Ele não sugere — ele impõe imagem até à saturação. Recomendo considerar esse procedimento: levar uma ideia até que ela se torne fisiologicamente desconfortável. Sobre Christopher Lee a inovação da morte por afogamento não é apenas um detalhe técnico. É uma correção ontológica. O vampiro, tradicionalmente associado à ausência de respiração, é forçado a confrontar um meio onde respirar é irrelevante — logo, a morte torna-se uma questão de contexto físico e não de essência.

NO CAMINHO DE SWANN

“Naqueles tempos nos quais eu procurava por mim mesmo, pensava eu enquanto ouvia o estalido de uma ampola de heparina sendo aberta, achava se manteria o meu tom, se manteria a minha autencidade. Foquei-me na heparina, enquanto tirei o saco de sangue do PVC para pô-lo fresco em banho-maria para o meu café da manhã, mesmo sabendo que no inverno não há manhãs em Ellesmere. E então cheguei à conclusão: a minha narrativa não é autêntica porque tropeça em fios de neuronios desencapados!”