Bertrand Mandico regressa a Cannes com Roma Elastica, entre a doença, o artifício e o fantasma de Cinecittà

Bertrand Mandico regressa a Cannes com Roma Elastica, entre a doença, o artifício e o fantasma de Cinecittà

Maio 14, 2026 0 Por Roni Nunes
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Uma das presenças mais aguardadas das Sessões da Meia-Noite do Festival de Cannes 2026 é “Roma Elastica”, o novo filme de Bertrand Mandico — cineasta cuja obra tem oscilado entre o delírio visual, a reinvenção dos códigos de género e uma persistente pulsão meta-cinematográfica.

Situado em 1982, o filme acompanha Eddie, uma atriz que conheceu o auge da sua carreira nos Estados Unidos e que, confrontada com uma doença grave, procura escapar à deterioração física através do próprio cinema. A fuga materializa-se num projeto aparentemente deslocado: a participação num filme de ficção científica rodado em Roma, onde interpreta Rowina, uma mutante num futuro imaginado — 2025 — a partir da sensibilidade dos anos 80.

Este jogo de camadas — uma atriz a interpretar uma personagem dentro de um filme que projeta o futuro a partir do passado — inscreve Roma Elastica num território onde a ficção não funciona como evasão pura, mas como distorção consciente da realidade. A referência a uma homenagem “felliniana” à era dourada de Cinecittà não surge, assim, apenas como citação estética, mas como evocação de um cinema onde o artifício, o excesso e o corpo sempre foram centrais.

Mandico constrói esse universo com um elenco que cruza diferentes temporalidades do cinema europeu. Marion Cotillard assume o papel de Eddie, numa personagem que parece exigir simultaneamente fragilidade e presença icónica, enquanto Noémie Merlant surge como Valentina, maquilhadora e figura de proximidade num mundo em dissolução. A estas juntam-se nomes como Ornella Muti e Franco Nero, cuja presença reforça a ligação a uma certa memória do cinema italiano, bem como Isabella Ferrari, Alba Rohrwacher e Maurizio Lombardi.